terça-feira, 5 de julho de 2022

PARAFUSO









 
 
"Rode
Ao seu próprio redor
Tente não parar
Nem que tenha que ver o sol nascer

Afunde
Em sua própria confusão
Até encontrar suas respostas
Cuspidas em minha direção
Versões suas estão livres e à solta

E quando você não conseguir mais girar
Nada que você tenha que temer
Solte suas mãos
Deixe o sangue escorrer
Encare nos olhos
Do que te desafia
O tempo não virá aqui te defender
Mas se você olhar pra ele
Seja fria
Se olhar pra ele
Seja fria

Junte-se
Quando estiver em mil pedaços
Em sua essência
Seu artefato

Cante
Estou aqui pra te ouvir
Fincado no meu mundo
Um parafuso sem fim

E quando você não conseguir mais girar
Na rotação que deixou te envolver
Feche seus olhos
A lágrima vai correr
Pegue minha mão
O tempo não virá aqui me defender
Mas se eu olhar pra ele
Serei seu
Se eu olhar pra ele
Serei seu"

Fúlvio Ferrer

SP, 3 de julho de 2022.


segunda-feira, 27 de junho de 2022

O PRESENTE


 O PRESENTE

"Eu estou descendo
Sem o pedal do freio
A paisagem passa
O presente que eu tanto mereço

Estou morrendo
Ao mesmo tempo que vou renascendo
Não importa o tamanho da queda
Não importa o sofrimento

Eu tenho um plano
Cada vez mais próximo do final
Com tanto remendo
Pra desviar do que me faz mal

E quando me perco
Como uma batida frontal
Tudo é seguido do silêncio
E um brilho de uma arte-final

Tão mais próxima do final

Eu me lembro quando
Eu costumava enfrentar as ruas à noite
Com uma lanterna
E um canivete
É como se todos os sonhos
Se materializassem na minha frente
Sem a certeza
Da realidade
Meu presente


Eu tentei sair
Das ferragens que me prenderam
Adormeci
E mergulhei numa fonte de espelhos

Próximo à estrada
De uma maneira mágica
Meus sonhos me levaram embora
A vida se refaz, na prática

Essa é a minha arte-final

Eu me lembro quando
Eu costumava caçar pelas sombras
Na espreita
Destemido
Foi quando todos os sonhos
Me mostraram a realidade
De todas as vidas
Que eu permito
Meu presente"


Fúlvio Ferrer

SP, 26/06/2022


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

SEM MEMÓRIA

 




"A alegria virou mistério
Todo resto, todos quietos
A beleza, esquecida
Onde encontro a fonte da vida?
 

O que eu posso fazer?
Se eu tenho o dom
Mas não tenho um porquê
Apagando a memória

Se hoje eu quero cair de cara
Um degrau acima da minha raiva
Tão alto quanto meus novos sonhos
Tão íntimo quanto meu velho silêncio

Afinal, o que eu tenho a perder?
Só o equilíbrio...
E eu nem sei do que
Apagando a memória

Eu perdi o convite de entrada
Nos bolsos, nada além do vazio
Eu perdi o controle na estrada
Bloqueio da mente virou meu abrigo
Amor, vamos lá!!
Entrar na noite e apagar
Do que sobrou da memória
 

Esqueci minha religião
De tão feroz que ela foi
É um filme com muita ação

É um alívio da minha dor
Amor, vamos lá!!
Despir a noite e mergulhar
Numa nova história


Não sei mais no que agarrar
Não sei como vou acordar

Não sem mais escrever sem cantar
O futuro vem em flashes...
E eu não quero olhar

Haverá espaço pra esperança?
Ou todo espaço será nossa vergonha?
Eu não consigo dizer porque
Mas eu consigo acreditar
No branco que me conduz
Sem memória ou sem luz
Eu consigo acreditar"

Fúlvio Ferrer

São Paulo, 15 de janeiro de 2022